Obituário de Count Basie

Count Basie
Publicado em: Jornal do Brasil
Data: 27/04/1984

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Rio de Janeiro — Sexta-feira, 27 de abril de 1984 

1904 – 1984 

DESAPARECE UM GIGANTE DA ERA DAS “BIG BANDS” 

 

Hollywood, Flórida — Count Basie, pianista, arranjador, compositor, líder, um dos maiores nomes da chamada era das big bands nos Estados Unidos, morreu ontem aos 79 anos, 46 dos quais dedicados à música como chefe de uma das mais famosas orquestras de todos os tempos. Basie fora hospitalizado há um mês para tratar do que se supunha ser uma úlcera. Exames posteriores, contudo, revelaram que tinha câncer no pâncreas, fato que a família preferiu ocultar-lhe. — Era um homem muito especial — disse Aaron Woodward, seu filho adotivo. — Se soubesse que estava com câncer, não iria querer continuar vivendo. Mas nem parecia sofrer da doença. O médico que o assistiu até os últimos momentos, Dr. Leo Schildhaus, informou que o músico chegou ao hospital no dia 4 de fevereiro. Dez dias depois foi-lhe dada alta. Chegou a voltar à atividade, apresentando-se à frente de sua orquestra no Hollywood Palladiu, na Califórnia. Mas, a 27 de março, acometido de nova crise, voltou ao hospital. Morreu às 4 horas da manhã, cercado de parentes. Seus restos mortais irão para Nova Iorque para os funerais que serão conduzidos pela Igreja Batista que ele e sua mulher, Catherine, morta há um ano, freqüentavam. 

Economia de notas, riqueza de sons 

COM a morte de William Count Basie, encerra-se um capítulo glorioso na história do jazz, das big bands e da música norte-americana. Pianista e líder de uma das orquestras mais importantes de todos os tempos, atravessou quase meio século à frente de sua formação, ganhando fama e fortuna, tocando em quase todos os países do mundo, recebendo homenagens e condecorações, inclusive da Rainha da Inglaterra e Presidentes de várias nações. Com seu perene entusiasmo, dinamismo e uma paixão incontida pelo jazz, foi uma das suas forças mais atuantes e mais queridas. Basie nasceu em 21 de agosto de 1904, em Red Bank, Nova Jérsei, aprendendo piano na escola. Começou profissionalmente tocando nos shows de vaudeville, acompanhando filmes mudos e pequenos conjuntos. Com um deles foi a Kansas City, onde se fixou. Suas influências foram Fats Waller (com quem aprendeu a tocar órgão) e os pianistas de ragtime James P. Johnson e Willie “The Lion” Smith, herdando deles a força rítmica do seu estilo econômico, que sintetizou a arte de tocar tanto com poucas notas. Em Kansas City, um celeiro de músicos de jazz nos anos 20 e 30, tocou no conjunto Blue Devils, de Walter Page, que seria depois o seu contrabaixista. Em 1929 passou à Orquestra de Bennie Moten, como segundo pianista, na qual também tocavam Page, os trompetistas Hot Lips Page e Ed Lewis, o cantor Jimmy Rushing, o trombonista/guitarrista Eddie Duham e o saxofonista Jack Washington, que mais tarde seriam seus sidemen. Com a morte de Moten, seu irmão Bus assumiu o comando, enquanto Basie formava um quinteto para tocar no Clube Reno, mas logo depois aumentava o número de músicos para nove, além de Rushing nos vocais. O crítico John Hammond ouviu certa noite a transmissão direta das apresentações de Basie no Reno; impressionado com a qualidade da música e com os destaques 

individuais para Lester Young (sax-tenor) e Jo Jones (bateria), decidiu ir a Kansas City ouvir o grupo. Lá confirmou sua impressão inicial e logo conseguia que a orquestra tocasse em Chicago e Nova Iorque, dando a primeira real oportunidade para o maestro. Em Chicago, a primeira sessão de gravação com um quinteto integrado por Carl Smith (trompete), Lester Young, Baste, Page e Jones, deixou para a posteridade Shoe Shine Boy e Lady Be Good, nas quais Young apresentava seu estilo revolucionário, além de Evenin’ e Boogie Woogie, dois vocais de Rushing. Com o ingresso de Herschel Evans (sax-tenor), Benny Morton e Dickie Wells (trombone), Earl Warren (sax-alto), Harry Edison e Buck Clayton (trompetes), além do guitarrista Freddie Green, que ficaria com Basie até o último dia de vida do maestro, veio uma fase de grande sucesso artístico, resultando numa série de discos importantes, como Jumpin’ At the Woodside, Honeysuckle Rose, One O’Clock Jump (que foi seu prefixo durante muitos anos), Shorty George, Let Me See, Jive at Five, Swingin’ At the Daisy Chain, Texas Shuffle, Roseland Shuffle, Every Tub, Doggin’ Around, Swinging the Blues, John’s Ides, Sent For You Yesterday, Blue and Sentimental e muitos outros. O som da orquestra era peculiar, facilmente identificável, com os metais e as palhetas tocando passagens exuberantes com total abandono, enquanto o piano do líder, com economia de notas, era um perfeito contraste para o jogo tensão/descanso. A orquestra desenvolvera uma maneira de executar à perfeição arranjos não escritos na pauta, mas simplesmente cada seção aprendia de cor as suas partes, contribuindo para uma espontaneidade maior e um entusiasmo contagiante, além de produzir um balanço excitante ao introduzir a execução de dois ou mais riffs 

(pequena frase musical repetida várias vezes) em contraponto, consagrado no famoso blues One O’Clock Jump. O impacto causado por Basie e seus músicos foi enorme; a orquestra foi muita imitada, e Lester Young (cuja influência foi importante para o desenvolvimento do jazz moderno), Dickie Wells, Edison e Clayton, entre outros, tiveram carreiras proeminentes após deixarem Basie. Veio a guerra e vários músicos foram convocados, entrando outros nomes que também se destacaram, ajudando o maestro a manter o seu estilo. Carismático, perspicaz e astuto, Basie escolhia seus novos músicos antevendo em suas qualidades as prováveis contribuições que trariam para a sua organização. Com muitas mudanças de pessoal, chegou ao fim dos anos 40 obrigado a reduzir seus músicos a sete elementos, por motivos econômicos; entre eles, Clark Terry (trompete), Wardell Gray (sax-tenor) e Buddy De Franco (clarineta) deixaram sua passagem com alguns registros interessantes. No início de 1952 organizou nova formação, contando com Joe Newman (trompete), Henry Coker (trombone), Paul Quinichette e Eddie Davis (saxes-tenores), Gus Johnson (bateria), Marshall Royal (sax-alto), além de recrutar os arranjadores Neal Hefti e Ernie Wilkins, iniciando então a chamada fase moderna da orquestra. Contratado pelo empresário Norman Granz, começou a gravar prolificamente, resultando numa outra série de discos importantes. Com o ingresso de Thad Jones (trompete), Frank Wess e Frank Foster (saxes-tenores), Basie não apenas ganhou novos solistas de categoria, mas também compositores e arranjadores que contribuíram prolificamente para o seu sucesso. Com a chegada da era dos festivais de jau, Basie passou a ser requisitado pela maioria dos organizadores, ficando com uma 

 

(Is Vil agenda tomada com um ano de avanço. A partir de 1954 tocou anualmente na Europa, além de viagens ao resto do mundo. Com o ingresso de Joe Williams, a orquestra ganhou uma popularidade extraordinária; Joe deixou sua marca de grande cantor em várias gravações, mas foi Everyday o maior sucesso popular de Basie em todos os tempos. Basie mudou de músicos centenas de vezes, uma constante na área das big bands, mas sempre manteve o padrão de qualidade, sendo uma autêntica escola para músicos e arranjadores. Nunca veio ao Brasil, embora por aqui passasse em 1966, a caminho da Argentina; fora contratado para uma série de apresentações em 1980, mas contraiu catapora, então com 75 anos, e foi obrigado a cancelar o compromisso. Apelidado também como Bill, The Chief e Mister C, era idolatrado por músicos, artistas de cinema e grandes personalidades políticas. O Príncipe de Gales foi um dos seus admiradores, assim como a Princesa Margareth, o campeão de pesos pesados Joe Louis, os astros Bette Davis e Clark Gable e o ex-Presidente Richard Nixon. Sua mulher Catherine faleceu há pouco mais de um ano, e sua única filha, Diane, e o filho adotivo, Aaron Woodward, são herdeiros de uma enorme fortuna. Amigo de todos, admirado pela sua simplicidade e educação. Basie era um entusiasta do turfe, sendo um apostador inveterado. Também era torcedor dos Yankees no beisebol. Count Basie deixa um legado importantíssimo, uma obra que permanecerá eternamente nos anais do jazz, uma obra que documenta grande parte da história das bjg bands. A cantora Lena Horne, outra admiradora do maestro, sintetizou de maneira muito feliz a sua trajetória brilhante: “Count Basie não é apenas um homem ou o líder de uma orquestra. Ele é um modo de vida.”

José Domingos Raffaelli

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Este post tem 6 comentários

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