O novo som Meirelles e os Copa 5

JT Meirelles
Publicado em: O Globo
Data: 04/12/2001

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O novo som Meirelles e os Copa 5 

Um dos acontecimentos mais importantes na música instrumental brasileira foi o reaparecimento do saxofonista e flautista J. T. Meirelles, em agosto do ano passado, numa temporada de sucesso no bar Meirelles e os Copas 5do Hotel Novo Mundo, de grande repercussão no meio musical. Após anos de ausência, ele retomou sua carreira, motivando a gravadora Dubas a reeditar dois discos históricos do seu conjunto Meirelles e os Copa 5, uma das forças do samba-jazz, gravados para a Philips nos anos 60 — o pri-meiro, “O som”, originalmente lançado em 1964, foi reeditado há quatro meses. Em “O novo som”, Meirelles (sax-tenor e flauta) comanda um grupo de astros que na época iniciava sua trajetória, com Eumir Deodato (piano), Roberto Menescal (violão), Waltel Branco (guitarra), Manoel Gusmão (baixo) e Edison Machado (bateria). A faixa-bônus, “O barquinho”, foi gravado na Alemanha com o trio do pianista Dom Salvador. 

A individualidade da concepção de Meirelles aflora em todos os momentos, e a coesão do conjunto reflete o entusiasmo e o dinamismo das interpretações, com arranjos simples e efetivos do líder de irresistível balanço. 

Os principais solistas são Meirelles e Deodato, em forma exuberante, tocando com grande disposição e invenção melódica, mas também há intervenções de Menescal e Waltel Branco. Não podemos omitir a atuação de Edison Machado, um inovador da bateria cuja pulsação e distribuição repletas de acentuações rítmicas deslocadas injetam dinamismo e suingue constantes. O repertório de 12 temas, é dividido entre clássicos da bossa nova, e três composições originais de Meirelles, “Serelepe”, “Solo” e “O novo som”, que tinham sido incluídos como faixas bônus na reedição de “O som”. 

Solo de Meirelles lembra estilo de Johnny Griffin 

A charmosa melodia da música-título é adequada para o líder projetar seu lirismo num modelar solo de flauta. Em “Serelepe”, um tema rítmico-melódico de grande efeito em andamento rápido, Meirelles literalmente explode numa cascata de notas ebulientes ao sax-tenor, evocando certos maneirismos de Johnny Griffin. A estrutura melódico-harmônica de “Solo” proporciona uma improvisação de rara continuidade de Meirelles na flauta, embalado pelo soberbo apoio de Edison Machado. 

Entre as músicas conhecidas, “Você” é exposta por sax-tenor e guitarra em uníssono, com breves passagens do líder e de Eumir Deodato. A misteriosa introdução de “Preciso aprender a ser só” conduz ao solo de Meirelles mais relax do disco, no sax-tenor; e “Samba de verão”, uma melodia simples construída sobre a mesma frase ascendente/descendente, alterna solos de tenor e piano. A insinuante “Balanço Zona Sul”, de Tito Madi, uma composição em voga nos anos 60 e 70 cujas harmonias favorecem a improvisação, tem todas as passagens da bridge tocadas por Deodato. A força melódica de “Pensativa”, obra-prima do pianista e arranjador Clare Fischer, dificulta improvisar sobre suas harmonias, mas o conjunto faz justiça à sua beleza. O arranjo de “Ela é carioca” destaca a sonoridade coletiva em uníssono, e o samba “Diz que fui por aí” realça o suingue do conjunto. Outros exemplos de um estilo ainda hoje moderno. 

José Domingos Raffaelli

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