Entrevista com Ray Charles, The Genius

Ray Charles
Publicado em: O Globo
Data: 09/09/1997

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Em 1996 foi publicada na primeira página do Segundo Caderno do jornal O Globo uma crítica que redigi comentando a caixa “THE HEAVYWEIGHT CHAMPION: THE COMPLETE ATLANTIC RECORDINGS OF JOHN COLTRANE” com 7 CDs.

Devido ao amplo destaque dado à crítica ocupando toda a primeira página, fato raríssimo no Globo em se tratando de um lançamento de jazz, enviei uma cópia do mesmo ao saudoso Ahmet Ertegun, então presidente da Warner Comunications e da Atlantic. Foi uma enorme e agradável surpresa ao receber sua amabilíssima carta de agradecimento pelo destaque do artigo, embora ele não compreendesse uma palavra de português, inclusive pedindo que lhe telefonasse quando fosse a New York.

Dois anos depois, em 1998, indo a New York, telefonei-lhe e disse-me que o procurasse para nos conhecermos; no dia seguinte estava em seu escritório, no Rockefeller Center, onde tivemos uma longa e amistosa conversa sobre jazz e música em geral. A certa altura, mencionei o nome de Ray Charles (que nos anos 50 foi contratado da Atlantic quando seus discos causaram grande sensação, tornando-se um dos maiores recordistas de vendas da gravadora), acrescentando que gostaria muito de entrevistá-lo. Então tive uma surpresa maior quando Ahmet disse-me que “The Genius”, de quem era grande amigo, estava em New York, e imediatamente pediu à sua secretária que telefonasse a ele no hotel onde estava hospedado. Ouvi tudo o que Ahmet disse a RC e, noutra baita surpresa, voltou-se para mim perguntando se queria entrevistá-lo no dia seguinte à tarde e poderia ser no seu escritório. Exultando de alegria, agradeci emocionado e no dia seguinte estava lá antes da hora marcada. Não demorou muito e Ray Charles chegou acompanhado por seu secretário; após sermos apresentados, iniciei a tão almejada entrevista, que adiante transcrevo. Simpático e bem falante, THE GENIUS respondeu todas minhas perguntas e narrou fatos da sua vida e sua carreira que eu não conhecia.

A vida de Ray Charles não foi nada fácil, sendo repleta de paradoxos e tragédia. Ele nasceu em Albany, na Georgia, em 23 de setembro de 1930. Sua família era muito pobre e, cego desde os 6 anos, viveu num orfanato até os 15 anos. Pobre, cego, negro e sem perspectiva de vida, sofreu muito com a segregação e discriminação racial. Mas tudo começou a mudar depois de aprender piano e tornar-se cantor. Aos 18 anos num bar de Seattle, Washington, iniciou sua trajetória de triunfos e sucessos em todo o mundo liderando seu trio, começando a abrir caminhos para o jazz e a canção popular, enfatizando a crueza do rhythm & blues e o fervor do canto gospel, saltando da infância pobre à fama e fortuna. O pequeno público que ouviu e aplaudiu aquele pianista e cantor cego que imitava Nat King Cole percebeu que ele tinha futuro.             

Ray Charles foi o cantor mais influente da música popular americana, tornando-se um recordista de vendas de discos, um tesouro nacional e  fenômeno mundial. Ele influenciou cantores de jazz, da música pop, do rock, vendendo mais de 80 milhões de discos.

Simpático, atencioso e bem falante, THE GENIUS respondeu todas minhas perguntas e narrou outros fatos da sua vida e sua carreira que eu não conhecia. Seguem-se seus comentários e suas declarações. Iniciou falando sobre sua vida artística:

– Comecei muito cedo tateando no piano. Lá pelos 12 anos comecei a cantar blues influenciado por Charles Brown e logo depois fiquei encantado pelo estilo de Nat King Cole, a quem procurei imitar.   

Seus primeiros discos gravados em 1948 para o selo Swingtime soavam como uma imitação de NKC. A primeira sessão, com seis músicas, incluiu “I Love you, I Love you”, “Alone in the City” e dois blues.

– Eu tinha 17 anos quando gravei pela primeira vez com um trio. Era bastante verde, mas confiava nas minhas possibilidades. O produtor John Piel estava otimista e me incentivou muito. Lembro que gravei “Confessin’ blues” e “Rockin’ Chair blues” (os dois blues mencionados acima) tocando com um guitarrista e um baixista, a mesma formação do trio de Nat King Cole, meu grande ídolo. Esses discos não tiveram repercussão na época, ficando restritos a um público diminuto, pois a distribuição era precária. Desanimado, fui para Seattle morar com uma tia e lá conheci Quincy Jones, de quem tornei-me amigo inseparável. Aos 15 anos, ele já fazia arranjos geniais. Ele sempre me incentivou a fazer arranjos e me ajudou bastante. A nossa amizade resultou em inúmeras colaborações em discos.

Até meados dos anos 60, Ray Charles parecia ter o toque de Midas, mas ele afirmou que a sorte e a ajuda de certas pessoas amigas foram fundamentais para seu sucesso.

– Não basta ter talento para vencer na vida, mas, com uma ajuda da sorte, o sucesso pode chegar, embora haja exceções. Tem gente de grande talento, como Lou Rawls, que deveria ser popular em todo o mundo, mas por alguma razão, não é. Ninguém canta como ele. Nesse aspecto, devo muito a Nesuhi Ertegun, o dono e fundador da Atlantic, que produziu meus discos e todos alcançaram a parada de sucessos.

Entretanto, apesar da fama e fortuna, ele transferiu-se para a ABC- Paramount, continuando a liderar a parada de sucessos. Nessa época ele gravou alguns dos seus discos mais populares incluindo as canções Georgia on my mind”, “Ruby”, “Unchain my heart”, “I can’t stop loving you” e “Hit the road, Jack”.  

– A proposta da ABC-Paramount foi irrecusável. Nesuhi era um gentleman, compreendeu meus motivos, desejou-me felicidades e disse que a Atlantic estaria sempre à minha disposição. Foi uma das vezes em que chorei. 

Apesar do sucesso, ele começava a ter sérios problemas com as drogas.

– Eu era viciado em heroína e minha saúde estava cada vez pior – conta.

Fui preso, mas não cumpri sentença, decidindo enfrentar o problema de frente. Venci a batalha com a ajuda de Raheta Johnson, a moça finlandesa com quem me casara. Em 1965 estava totalmente “limpo”.         

No fim dos anos 60 ele fundou a Tangerine Records, gravando tudo que queria.

– Queria gravar um disco de jazz com minha orquestra e meu primeiro lançamento foi “My kind of jazz”. Era uma banda formidável com Blue Mitchell, Henry Coker, Oliver Beener, Clifford Solomon e outros. 

Ray perdeu a conta das vezes que tocou no Brasil, mas não esquece da primeira vez, em 1963.

– Devo ter tocado oito ou dez vezes no Brasil. Tocamos num teatro de ótima acústica e tivemos uma receptividade acima da nossa expectativa

Ele tocou no Brasil sete vezes e o Municipal é o teatro de ótima acústica ao qual referiu-se. Sobre os caminhos da música em geral daquele período, afirmou que se trata de uma grande mistura.

– Assistimos a tantas transformações na música popular que algumas ultrapassam os limites da própria música. Não sou radical, mas há absurdos que pouco ou nada têm a ver com música. O rap, por exemplo, é um amontoado de palavras que poucos entendem.

Despedindo-se, Ray Charles agradece pela entrevista (quem deveria agradecer, e muito, era eu), desejando-me boa sorte e dizendo:

– Minha vida sempre foi e continua sendo a música. Estou há tanto tempo nela e com ela que, sem ela não poderia viver um minuto sequer.

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