LP Chet Baker Sextet & Quartet
CHET BAKER
O caso de Chet Baker é um dos mais estranhos que temos conhecimento no curso da história do jazz. Em 1952 era um jovem trompetista desconhecido à procura de uma oportunidade, que surgiu quando Gerry Mulligan formou seu quarteto. Em apenas 1 ano Chet Baker saltou da obscuridade à vitória espetaculares nas revistas Down Beat e Metronome, tornando-se uma celebridade jazzística. O sucesso chegou cedo demais, e com ele vieram problemas difíceis. Dez anos depois Baker estava virtualmente esquecido, tentando desesperadamente reencetar uma carreira profundamente abalada pelo vício e o descrédito.
Chet cativou o público pela suavidade de sua sonoridade, particularmente bela e emotiva ao tocar a melodia de uma balada, contrastando com os sons do fraseado dos trompetistas bop. Baker era diametralmente oposto em estilo, concepção e execução, transparecendo uma serenidade que não era mais ouvida no trompete. Possivelmente esta tenha sido a chave do seu sucesso.
Chesney Baker nasceu em Yale, estado de Oklahoma, em 23 de Dezembro de 1929. Aos 13 anos iniciou seu aprendizado musical em Los Angeles, para onde sua família mudara-se pouco antes. Ganhou alguma experiência em conjuntos de dança. Entretanto, foi durante o período que prestou serviço militar em San Francisco que iniciou realmente sua carreira, tocando todas as noites no clube "Bop City", ao lado de músicos de categoria. Ao dar baixa, em 1952, conheceu Mulligan, atuando em seu quarteto na área de Los Angeles e arredores. O sucesso do grupo foi retumbante, refletindo-se nos sucessivos contratos para apresentações públicas e muitos discos. Estes foram muito bem recebidos pela crítica, que destacava o fato do quarteto trazer uma novidade: a ausência de piano, que modificava substancialmente o clima harmônico nos pequenos combos de jazz.
Um ano depois, já famoso, Chet aproveitou a popularidade para organizar seu próprio quarteto. Em 1955 partiu para uma excursão de 4 meses na Europa, que prolongou-se por mais quatro em face da grande receptividade em todos os países onde tocou. Retornou aos Estados Unidos em 1956 e no final de 57 – com problemas cada vez mais acentuados – mudou-se para New York. Em meados de 59 foi obrigado a sair do país, radicando-se na Itália, onde ficou 4 anos, mas encontrando igualmente outras desventuras nessa terceira fase de sua carreira. Voltou à sua terra em 1963, tocando e gravando esporadicamente, sem maiores possibilidades de trabalho, pois suas atribuições evoluíam progressivamente. Foi tentada uma reunião com Mulligan, mas sem maiores consequências em face de sua precária forma.
Este disco foi gravado em Milão, Itália. Chet havia chegado pouco tempo antes e já era ídolo dos músicos locais, grandes admiradores do chamado "West Coast Jazz". O estilo dos solistas, as sonoridades dos ensembles e os arranjos realçam essa derivação estilística.
Com Chet Baker ouvimos Glauco Masetti (sax alto), Gianni Basso (sax tenor), Renato Sellani (piano), Franco Cerri (contrabaixo) e Gene Victory (bateria). Em 25 de Setembro de 1959 foi gravado LADY BIRD. No dia seguinte foi a vez de CHERYL, TUNE UP e LINE FOR LIONS. Em 6 de Outubro de 1959 gravaram PENT-UP-HOUSE, LOOK FOR THE SILVER LINING, MY OLD FLAME e INDIAN SUMMER, as duas últimas em quarteto com Chet e a seção rítmica. As faixas de sexteto foram arranjadas pelo trompetista Giulio Libano.
A sonoridade de Chet é projetada em toda sua plenitude nas baladas LOOK FOR THE SILVER LINING, MY OLD FLAME e INDIAN SUMMER,; esta última, um perfeito exemplo de "cool jazz" contém interessante uso de espaço pelo trompetista. Em CHERYL Baker mostra uma forma pessoal de interpretar os blues, inteiramente distinta do idioma dos negros; seu quarto chorus é mais ousado do que normalmente.
Dos seus sidemen, Glauco Masetti revela influências de Herb Geller e Lennie Niehaus, com alguns solos interessantes e frases bem executadas. Gianni Basso é um discípulo de Stan Getz, embora mais lacônico. O pianista Sellani toca no estilo de Russ Freeman, a pedido de Chet Baker, embora sem a mesma fluência. O baixo de Cerri é atento e integrado à seção rítmica, destacando-se especialmente pelo acompanhamento em TUNE UP, durante o solo de Baker. O baterista Victory utiliza as escovinhas a maior parte do tempo, mantendo o clima "West Coast" em todas as faixas.
Este Disco é representativo da terceira fase da carreira atribulada de Chet Baker, destinando-se aos que o apreciaram por ocasião do seu início promissor e àqueles que ainda não tiveram oportunidade de ouvi-lo.
Conhecida revista especializada, em seu número de Julho de 1976, publicou dramático editorial solicitando apoio integral à Chet Baker para salvá-lo antes que seja tarde. Esperemos que resultados imediatos se verifiquem, augurando que a carreira de Chet Baker volte a conhecer o mesmo sucesso de 1953 até 1956.
JOSÉ DOMINGOS RAFFAELLI