Entrevista

Uma guitarra na vida pop

Publicado em 13 de abril de 1992 · Onde foi publicado: Jornal O Globo
Uma guitarra na vida pop

Uma guitarra na vida pop

JOSÉ DOMINGOS RAFFAELLI
 
George Benson volta ao Brasil pela terceira vez para uma rápida turnê no Rio e em São Paulo. Ele faz apresentação única no Imperator amanhã, com sua banda, integrada por David Witham (teclados e diretor musical), Tom Hall (teclados), Patrick Kelley (segunda guitarra), Stanley Banks (baixo), John Ferraro (bateria) e Dennis Saucedo (percussão). Benson veio ao Brasil no Rock in Rio, em 1985, e no Free Jazz Festival de 1989. Entusiasta da música brasileira, gravou "Dinorah, Dinorah", de Ivan Lins. Guitarrista de jazz dos melhores, desenvolveu uma maneira pessoal de cantarolar em uníssono com as frases que toca na guitarra. Alcançou sucesso popular quando começou a cantar música pop, ampliando seu público, ganhando vários discos de ouro e platina, o Grammy e inúmeros concursos de popularidade promovidos pelas revistas especializadas. Entusiasmado por voltar ao Rio, deu entrevista ao GLOBO, por telefone, diretamente de Santiago do Chile.
— Tenho algumas novidades no repertório, algumas canções do disco que estou gravando com um pequeno conjunto. Há uma mistura de músicas populares e temas de jazz. Termino de gravar quando voltar. O disco ainda não tem título, mas deve sair no meio do ano.
Sobre seu último disco, "Big band boss", com a Orquestra Count Basie, diz que tudo começou quando Basie o ouviu cantar nos bastidores e o convidou para gravar.
— Logo depois ele morreu e o projeto ficou esquecido. Há três anos eu e Frank Foster, que lidera a orquestra, achamos que chegara a hora.
Benson diz que o público brasileiro vai gostar da sua banda:
— O baterista Ferraro começou há pouco tempo, mas Stanley Banks está comigo há 17 anos. Os outros também são excelentes músicos.
Benson não concorda quando dizem que trocou o jazz pela música pop:
— Sempre mantive temas de jazz no repertório. Mas todos sabem que é difícil viver tocando jazz. Por isso toco e canto coisas diferentes. Não vejo por que separar as coisas. Tudo é música.
Ele considera bom o nível atual da música americana, mas não tanto como há alguns anos.
— Eu presto atenção nas músicas, não nos compositores. Claro que se existem boas músicas, há bons compositores. Mas também há os que escrevem letras sobre sexo e drogas. Não gosto disso. É deprimente. Há tanta coisa boa no mundo, não há razão para escolher esses temas.
Sua grande influência na guitarra foi Wes Montgomery, "um músico fantástico, mas também ouvi e gosto muito de Charlie Christian, um pioneiro da guitarra moderna, Django Reinhardt e Grant Green, que não é muito conhecido". Seu cantor preferido é Nat King Cole, "um intérprete romântico de grande sensibilidade.
— Espero um dia gravar um álbum com suas músicas, acompanhado por uma big band.
Há alguns anos Benson interpreta "Unforgettable", que agora ressurgiu como grande sucesso de Natalie Cole, cuja gravação considera "fantástica, é algo maravilhoso que ficou mais emocionante pelo dueto com o pai, graças ao milagre da tecnologia".
O guitarrista tem afinidades com a música brasileira. Ele gravou músicas de Ivan Lins.
— Ouvi Ivan em Nova York há duas semanas. Gostei demais. Ele é um dos melhores. Também gosto muito de Jobim, Luiz Bonfá, seu sobrinho Otávio Bonfá e Djavan. Gostaria de gravar um álbum com músicas brasileiras. Os brasileiros compõem música de qualidade. São melodias bonitas, muito românticas.
Despedindo-se, George Benson diz estar contente em voltar ao Brasil:
— Digo isto porque é verdade. Não sou de dizer as coisas para agradar.
 

Artista versátil e consistente

Artista consagrado em todo o mundo, George Benson enveredou pela música ainda garoto. Guitarrista e cantor, não demorou para revelar seu talento. Seu primeiro ídolo e grande influência foi Wes Montgomery.
 
Começou profissionalmente no conjunto do organista Jack McDuff. Depois tocou num quarteto com o saxofonista Ronnie Cuber. Em 1968 assinou com a gravadora A & M, substituindo Wes Montgomery, que fora contratado pela Verve. Ainda em 68, grava "That lucky old sun" revelando grande potencial como cantor. Nesse ano, participa de uma faixa do disco "Miles in the sky", de Miles Davis. A essa altura, era um dos mais consistentes guitarristas de jazz.
 
Assina contrato com a Warner. "This masquerade" é um sucesso. O álbum duplo "Livin' inside your love" vende quatro milhões de cópias. Benson se torna um superstar da noite para o dia. O resto é história.
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