Crítica de disco

Sopro na alma do jazz

Publicado em 16 de março de 1992 · Onde foi publicado: Jornal O Globo
Sopro na alma do jazz

Pacote de CDs traz as raízes de Wynton Marsalis, a riqueza de Branford e o lirismo de Miles Davis

JOSÉ DOMINGOS RAFFAELLI
 
O ano começa bem em lançamentos jazzísticos. Está chegando às lojas um pacote com cinco CDs: a trilogia "Soul gestures in southern blue", de Wynton Marsalis, "The beautiful ones are not yet born", de Branford Marsalis, e ""58 Miles featuring Stella by starlight", de Miles Davis. Música de qualidade com quase cinco horas para ouvir, apreciar e analisar.
 
Wynton Marsalis é o músico que mais conhece a história do jazz. Dedicado, estudioso e talentoso, realizou um projeto monumental em "Soul gestures in southern blue", dividido em três itens: "Thick in the south" (volume 1), "Uptown ruler" (volume 2) e "Levee low moan" (volume 3), editados pela Sony Music. É uma visão pessoal do blues, em que cada composição ganha a verdadeira dimensão da tradição e da evolução do idioma básico do jazz, revelando uma inusitada flexibilidade no tratamento das suas facetas rítmicas e seus voicings. Tendo como base o seu conjunto regular, com os convidados Joe Henderson (sax-tenor) e Elvin Jones (bateria) no volume 1, Wynton pesquisa o que ele considera a essência do blues em mais de duas horas e meia de música. Todd Williams (sax-tenor), Wes Anderson (sax-alto), Marcus Roberts (piano), Reginald Veal (baixo) e Herlin Riley (bateria) formam o seu combo regular, absolutamente integrado ao espírito de grupo e à concepção do líder-compositor-arranjador.
 
Muitos o acusam de conservador e tradicionalista, mas ele se volta às raízes da música negra para uma investigação consciente com a finalidade de manter viva a linguagem do jazz sem concessões. Nada há de conservador ou tradicionalista na sua atitude, pois o blues faz parte do repertório dos jazzmen de todas as épocas. Ele assume a posição de inovador ao abordar material exaustivamente interpretado como obra didático-musical, mostrando a forma e o feeling genuíno através de temática extremamente diversificada. Temas, variações e solos, bem como a interação dos instrumentos no contexto, são constantemente reconsiderados pelo tratamento dado por Marsalis.
 
Pela seriedade do projeto, que traz uma contribuição magnífica na reconstituição histórica do passado, além do seu conhecimento da cultura musical americana, Marsalis reafirma sua liderança no jazz atual. Isto sem falar na sua categoria como trompetista, um improvisador de técnica bem próxima da perfeição, que há uma década tem uma carreira pontilhada de sucessos e realizações artísticas de alto porte. Obras como essa nos fazem redescobrir o fertilíssimo solo jazzístico, uma síntese do blues que conserva o feeling das origens numa linguagem mais moderna.
 
Ao contrário de Wynton, seu irmão mais velho Branford levou algum tempo para encontrar o caminho da individualidade. Por volta de 1985 chegou à maturidade, sendo hoje um dos três saxofonistas mais importantes do jazz, um músico de estatura que provoca expectativa a cada novo lançamento. Em "The beautiful ones are not yet born" (Sony) é acompanhado por Bob Hurst (baixo) e Jeff Watts (bateria), tendo como convidados seu irmão em "Cain & Abel" e Courtney Pine (sax-tenor) em "Dewey baby".
 
Embora se adapte a qualquer contexto e estilo, Branford é um improvisador-explorador, com frases complexas que abrigam substituições harmônicas de rara inventividade. Sua expressão pessoal e suas idéias originais, aliadas à liberdade que o contexto concede, produzem música vital de interesse crescente. Há ampla variedade de andamentos, tempos e passagens intermediárias que enriquecem as interpretações.
 
Da faixa-título, uma balada-lamento (no sax-soprano) com complementações de baixo, ao up tempo "Xavier's lair" (no tenor) antevemos que o talento de Branford ainda nos dará muitas alegrias. "Cain & Abel" relembra os tempos em que os Marsalis tocavam lado a lado; eles nos brindam com atuações impecáveis, com fulgurante capacidade de gerar tensão sem perder o entrosamento e o feeling natural, criando instigantes contrapontos improvisados.
 

'Stella by starlight': lirismo e bom gosto

Em vida, Miles Davis já era mito, cult e ídolo. Poucos meses após sua morte, continua o "garimpo" à procura de suas obras inéditas ou de suas interpretações pouco conhecidas. Em 1958, o conjunto de Miles passou por três importantes mudanças: virou sexteto, com o ingresso de Cannonball Adderley (sax-alto), Bill Evans substituiu Red Garland no piano e Jimmy Cobb ocupou o lugar de Philly Joe Jones na bateria.
 
A presença de Evans mudou a concepção do grupo, suas harmonizações mais sofisticadas, com acordes alterados criativos, em muitos momentos antecipavam a direção dos solistas, estimulando Miles, Cannonball e John Coltrane (sax-tenor). Mas a troca de Joe Jones por Cobb foi prejudicial; nos acompanhamentos, passaram a predominar os excessos da mão esquerda e as "bombas" de pé direito, subtraindo parte da unidade da sessão rítmica.
 
Dividido em duas sessões — uma no estúdio, outra ao vivo, no Hotel Plaza, de Nova York — o CD "Stella by starlight" (Sony) oferece 63 minutos com Miles e seu sexteto. Naquele tempo, ele ainda não sonhava trocar o jazz pelos decibéis. Suas investigações nas baladas gravadas em estúdio são irrepreensíveis ("On green dolphin street", "Frandance" e "Stella by starlight"), utilizando a surdina harmon para extravasar lirismo e bom gosto. Coltrane e Cannonball se situam quase no mesmo nível e Evans já era o individualista que logo se tornaria uma das grandes influências modernas.
 
Os registros do Plaza são extrovertidos pela própria natureza de uma exibição em público. "Straight, no chaser" e "Oleo" são veículos que conduzem a solos descontraídos, mais vibrantes porém menos concisos que os registros de estúdio. Aí é que Jimmy Cobb se excede mesmo. "My funny Valentine" é outra história: Evans transforma e refina a melodia, seguido por Paul Chambers (baixo) e Miles, que mostra a capacidade que tinha de pôr sua personalidade em tudo que tocava. (J.D.R.)
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